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Mulheres na Engenharia
Além dos estereótipos
Derrubando paradigmas, a participação de mulheres na engenharia avança. Referências femininas na área ainda têm pouca visibilidade.
Reportagem de Andrés Gianni
publicada na Voz do Engenheiro nº6






“Sempre tive uma grande paixão pela matemática e, quando pesquisei sobre engenharia, vi a oportunidade de juntar o que sempre gostei com a prática. Apesar de nunca ter tido contato direto com a área, quando ingressei na faculdade pude compreender que a engenharia era algo além. Uma mistura de ciência, tecnologia e arte. Uma forma de produzir, criar, inventar algo para facilitar a vida do homem, usando de conhecimento, criatividade e bom senso”. É com essas palavras que Raquel Duarte Menezes, estudante do 5º semestre do curso de Engenharia de Computação do Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB), descreve os motivos de sua escolha. Embora seja a única mulher nas disciplinas específicas de computação - na média, o curso tem três alunas - e de ainda não ter tido aulas com professoras (no curso há três), Raquel faz parte de uma nova geração de mulheres que ingressa nos cursos superiores de engenharia, tanto estimuladas pelo gosto pessoal como pelo aumento das opções no mercado de trabalho.
No âmbito geral da formação superior, as mulheres são hoje a maioria nos cursos de graduação e pós-graduação do país, representando 56% do número de matriculados, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE). Também é maior o porcentual de mulheres que concluem o curso superior (62%), conforme levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP).
Na engenharia, embora as mulheres ainda sejam minoria, também tem crescido sua participação os cursos da área. Segundo dados do INEP, em 1991 as mulheres representavam 17% do número de matrículas nos cursos de graduação das engenharias. Em 2000, a representação passou a 19% e, em 2008, já era de 21%. “O ingresso das mulheres de forma maciça nas carreiras de nível superior é relativamente recente, data dos anos 1970”, afirma Maria Rosa Lombardi, socióloga e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas. “Indubitavelmente, o leque de opções de profissões para elas abriu-se muito desde então, mesmo que, ainda hoje, as maiores concentrações de matrículas e conclusões femininas continuem em carreiras das ciências humanas e sociais, com destaque para a área da educação. A engenharia - e outras carreiras tecnológicas e científicas - definitivamente passaram a integrar as possibilidades profissionais das jovens e isso se reflete no aumento do número de matrículas nesses cursos”, avalia a socióloga, que também é doutora em relações de gênero, trabalho e profissões pelo Centre National de Recherches Scientifiques e Université de Paris X - Nanterre.
Ganhando menos
Porém, a conquista de um diploma de curso superior não garante às mulheres a equiparação salarial com os homens. Segundo o estudo Mulher no mercado de trabalho: Perguntas e respostas, divulgado em março pelo IBGE, na comparação da média anual de rendimentos dos homens e das mulheres, verificou-se que as mulheres ganham em torno de 72,3% do rendimento recebido pelos homens. Entretanto, no grupamento da Construção, as mulheres com onze anos ou mais de estudo têm rendimento ligeiramente superior ao dos homens com a mesma escolaridade: elas recebem, em média, R$ 2.007,80, contra R$ 1.917,20 deles. É uma exceção.
A subsecretária de acompanhamento, controle e fiscalização da Secretaria de Obras do Distrito Federal, engenheira civil Lia Sá, lembra que quando começou a estagiar, no final dos anos 1970, recebia menos do que os estagiários homens e, na época, não encarava isso como discriminação. “Eu achava que era pela minha falta de experiência. Eu não tinha noção de que estagiário não era contratado 'pela experiência', que estava ali justamente para aprender”, diz. Ela conta que a engenharia era considerada “profissão de homem”. “Quando eu ia para as obras, eu me sentia como uma estranha no ninho. Hoje, quando eu olho pra trás, percebo que havia discriminação com as mulheres e que elas só podiam trabalhar no escritório”, avalia.
Condicionamento
Segundo o Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea), em 2009 as mulheres representavam 17% do número de profissionais registrados em todas as modalidades no sistema Confea/Crea - porcentual ainda pequeno comparado à participação masculina. Quais seriam os motivos para essa baixa participação das mulheres na área tecnológica, especialmente na engenharia?
Para a vice-presidente da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE), engenheira civil Fátima Có, a grande questão está no condicionamento cultural. “É um processo que começa na infância, na forma como a questão da matemática, das ciências exatas, é colocada. Eu sempre fui muito observadora. Via que nos livrinhos da escola, na hora de mostrar uma criança fazendo contas, era sempre a figura de um menino que ilustrava, e nunca a de uma menina. Isso vai condicionando a mulher, que se sente excluída do desafio de buscar as ciências exatas”, avalia. Fátima acredita que existe também uma questão de escolha pessoal. “Há mulheres que preferem o conforto, outros tipos de carreiras. Não querem sair muito do lar, da família, correrem certos tipos de riscos. Junto a isso, há falta de incentivo para a área”, diz.
O presidente do Clube de Engenharia de Brasília, engenheiro civil Carlos Moura, acredita que há um certo desinteresse feminino pela engenharia, mas não que haja restrição ou preconceito. “A engenharia, de certa forma, é uma profissão bruta. Uma coisa é a engenharia de escritório, de projeto, que talvez seja a engenharia mais pura. Já o acompanhamento, a engenharia de campo, é uma atividade mais pesada, que acaba desencorajando muitas mulheres. Nem todas estão dispostas a subir em andaime, descer num tubulão, assim como muitos homens também não. É uma questão de foro íntimo”, afirma. Ele cita como exemplo o caso de quando era diretor de uma empresa de geologia. “Nós fazíamos sondagens para barragens, no meio do mato. E tínhamos uma geóloga que ia para o campo, dormia em barraca e tudo. Sinal de que estava disposta a ir”, conclui.
Para Maria Rosa Lombardi, a literatura feminista tem remarcado uma dupla resistência, ao mesmo tempo presente nas áreas tecnológicas e científicas e, por outro lado, demonstrada pelas próprias jovens. “Têm-se levantado algumas vertentes explicativas no caso da engenharia. Por exemplo, a sua origem militar, o trabalho de campo, muitas vezes em locais distantes, sujeito a intempéries e a alojamentos precários ou em ambientes fabris, a cultura profissional masculina, a necessidade de comandar equipes predominantemente masculinas. Não há dúvida, porém, que mesmo que não se possa mensurar o peso da discriminação de gênero - que inclui as imagens e estereótipos sociais do masculino e do feminino - ela está presente nos ambientes de trabalho e nas famílias, em diferentes graus e deve ser contada entre as causas da resistência feminina às carreiras da área tecnológica e científica”, garante.
Preconceito disfarçado
Dos estereótipos reforçados nos livros escolares, passando pelas piadas nas salas de aula das faculdades até as diferenças salariais, são várias as formas de discriminação, explícitas ou veladas, que aparecem na trajetória das mulheres na engenharia. E, apesar de algumas das engenheiras entrevistadas afirmarem não terem sofrido diretamente preconceito ao longo de suas carreiras, surgem evidências desse preconceito nas entrelinhas de seus depoimentos.
Uma das formas de o preconceito se manifestar, reconhecida por várias entrevistadas, ocorre pela supervalorização da mulher. Fátima Có lembra de um secretário do serviço público que a apresentava a outras autoridades de uma maneira peculiar: “Essa aqui é uma engenheira maravilhosa. É mulher, 'mas' vale por dois homens”. Ela diz que isso é “um tipo de preconceito disfarçado de elogio. “O que é muito ruim, pois gera expectativas e cobranças muito grandes. Aliás, essa é a maior dificuldade que nós mulheres passamos, a expectativa dobrada”. Ela explica que, quando uma mulher consegue se destacar, a expectativa é sempre maior do que a que se teria com um homem. “Um erro cometido por eles se dilui, pois os homens são muitos. Mas quando uma mulher erra, o erro é usado para confirmar todos os estigmas que são colocados sobre as mulheres”, afirma Fátima. Lia Sá complementa: “Quando um homem erra, ele é perdoado. Se uma mulher comete o mesmo erro, ela é execrada”.
Fátima, eleita em 1997 a primeira mulher presidente do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Distrito Federal, diz que quando uma mulher assume um cargo de comando, geralmente é olhada com desconfiança. “Tem aquela sensação, 'será que ela vai dar conta?' É como se estivéssemos sempre em observação”, revela. Ela reconhece que assumiu para si essa cobrança social. “Eu me cobrei muito durante toda a minha carreira. Acho que minhas colegas também. Se eu fosse homem, talvez fosse menos preocupada”, admite.



