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Mulheres na Engenharia












Mulheres sem espelho
Outro fator impactante na hora de as mulheres escolherem a engenharia como profissão é a percepção de que faltam referências femininas na área. Seja pelos poucos cargos de comando que as mulheres ocupam, seja pela pouca visibilidade dada às que se destacam ou mesmo pela forma como as informações sobre a carreira chegam até as jovens - geralmente sob uma perspectiva masculina -, essa percepção ajuda a tornar a área tecnológica pouco atrativa.
A engenheira agrônoma e florestal Eliana Fortis Silveira Anjos lembra que, quando estudou na Universidade de Brasília, em 1972, não havia professoras no departamento de engenharia agronômica, o que, segundo ela, “não me permitiu fazer uma projeção da atuação das mulheres nessa área, ou mesmo me espelhar em alguma professora”. Para a estudante Raquel Duarte, o que falta não são referências, mas sim informação. Ela diz que existem diversas mulheres que servem de exemplo, “mas só tomamos conhecimento delas depois que entramos no curso”. Para a engenheira Lia Sá, que presidiu o CREA-DF de 2006 a 2008 e coordenou o Fórum de Mulheres no Congresso Mundial de Engenheiros, em 2008, há várias mulheres de sucesso na engenharia, “mas estão escondidas, ou melhor, não têm oportunidade de aparecer”.
Estratégias e ações afirmativas
Mas quais seriam os caminhos para dar mais visibilidade às mulheres da engenharia e, ao mesmo tempo, estimular uma maior participação feminina na área tecnológica? Maria Rosa Lombardi diz que é preciso mostrar que existem e sempre existiram mulheres trabalhando na área, desenvolvendo trabalhos interessantes, importantes e sendo bem remuneradas. “Em diversos países ocidentais, vários conjuntos de ações afirmativas junto aos jovens e às jovens do ensino médio têm dado bons resultados, como a divulgação dos cursos e das oportunidades de emprego e remuneração, palestras com profissionais bem sucedidas, visitas às escolas e às empresas para conhecimento”, explica. Ela destaca também a importância de um trabalho de tutoria com as jovens que optaram por essas carreiras e estão em seu primeiro emprego, realizado por profissionais mais antigas na ativa, ou por sindicatos, com o objetivo de lhes dar suporte profissional e pessoal, “amenizando a solidão feminina”.
Fátima Có acredita que o trabalho deve começar no ensino fundamental, dando conhecimento às crianças sobre a profissão. Ela também destaca uma iniciativa da FNE, que produziu, este ano, o vídeo Mais engenheiros para construir o Brasil, com o objetivo de incentivar estudantes do segundo grau, de ambos os sexos, a optar pela engenharia, mostrando o que é a profissão, as possibilidades de atuação no mercado e perspectivas futuras. Lia Sá acredita que as mulheres devem se reunir, congregando-se nas entidades de classe, apoiando suas candidaturas para postos-chave nessas instituições e, principalmente, “indicando mulheres para ocuparem cargos na administração pública e afetos à área tecnológica”. Para Eliana Fortis, as mulheres devem ousar mais, ocupando espaços como canteiros de obras, mecanização agrícola, área ambiental e tecnologias agropecuárias. Raquel Duarte acredita que é importante mostrar aos estudantes, homens e mulheres, que a engenharia não é um bicho de sete cabeças e que vai além da matemática.
As entrevistadas são unânimes em reconhecer que a melhor estratégia para sobreviver em uma área na qual ainda são minoria é a competência. “O caminho é sempre a profissional se apresentar em condições de igualdade no conhecimento, competência, experiência e mostrar bons resultados. Nessas condições, há um desarmamento natural do preconceito e uma maior aceitação do trabalho da mulher”, diz Eliana Fortis.
A engenheira eletricista Adriana de Carvalho Drummond Vivan, coordenadora do Curso de Engenharia Elétrica do IESB, exemplifica a vitória da competência sobre o preconceito. “Sou formada há 13 anos, e, quando comecei a faculdade, éramos cinco mulheres para uma turma de 35 homens. Consequentemente, as piadas eram normais. Com o passar dos semestres, os nossos próprios colegas conseguiram notar o nosso destaque acadêmico. Nessa estratégia eu acredito até hoje, se destacar pelos méritos profissionais”, diz.
Tempo de mudanças
Comparando hoje a duas ou três décadas atrás, as mulheres da engenharia já conseguem ver muitos avanços. “Não vejo mais aquela necessidade de justificar porque fazemos engenharia, como se fosse uma espécie de ousadia. Hoje a opção pela carreira já é vista com muito mais naturalidade”, afirma Eliana Fortis. Segundo ela, as estudantes de hoje já não precisam vivenciar “situações constrangedoras” como antigamente, quando eram minoria absoluta nas turmas.
Fátima Có avalia que as mulheres têm sido cada vez mais necessárias e requisitadas no mercado de trabalho, por suas características diferenciadas. “Acho que hoje tem gente que prefere contratar mulher”, diz. Segundo ela, essas características são a visão ampliada, a polivalência e a sensibilidade. “Quando vai numa obra, a mulher não pensa 'tijolo em cima de tijolo'. Ela, que é mãe, dona de casa, se preocupa também com a humanização do espaço, pois sabe que ali vai morar uma família”, explica. Para a estudante Raquel, as mulheres estão aparecendo em diversas áreas e mostrando seu valor “em grande estilo”. “Houve uma época em que a mulher não podia estudar, devia ser submissa, e hoje é admirada por suas conquistas e por cumprir papéis diversos, como o de mãe, esposa, dona de casa, e ainda assim atuar em áreas nunca antes imaginadas”, diz.
E é para Raquel e todas as mulheres que estão chegando agora na universidade, ou no mercado de trabalho, que Lia Sá deixa um recado. “Estudem e obtenham o conhecimento necessário para executarem, com eficácia e eficiência, as atividades que se propuserem a fazer. O mundo precisa de nós e isso ninguém vai nos tirar. Existem muitos homens seguros e de valor que nos apoiam e que nos querem ao seu lado para somar”.
Oportunidades iguais
Para sensibilizar e estimular as práticas de gestão que promovam a equidade de oportunidades entre homens e mulheres dentro do sistema Confea/Crea e também na sociedade, o Confea criou, em janeiro, o Grupo de Trabalho Pró-Equidade de Gênero, uma espécie de ampliação do GT Mulher, que vigorou até dezembro de 2009. “O novo GT é mais abrangente e trabalha a questão das minorias também”, explica a coordenadora do Grupo, a técnica em meteorologia e conselheira federal Maria Luiza Poci Pinto. Ela destaca que, embora a maioria dos estudos e políticas existentes enfoque a causa da mulher, o sistema Confea/Crea quer que haja integração no trabalho da qualidade de gênero, tanto masculino quanto feminino, “para se ter uma sociedade plena, democrática e justa”. Maria Luiza afirma ainda que, embora no geral as pessoas creiam que exista equidade de tratamento, esta não é a realidade. “Existem barreiras para as minorias, sim”. O novo GT está em fase de implantação e em breve deverá apoiar ações dos Creas nos estados, com base nas características regionais.
As Pioneiras
A engenharia era um clube exclusivo para homens até a chegada delas. No final do século XIX e início do século XX, as primeiras mulheres engenheiras desafiaram convenções e enfrentaram rejeição e hostilidade. Como o caso da romena Eliza Leonida Zamfirescu, a primeira engenheira da Europa. Eliza decidiu estudar na Escola Politécnica de Bucareste, mas não foi admitida pelo fato de ser mulher. Sem desistir, ela vai para Berlim, onde é aceita na Real Academia Técnica. A história diz que um dos professores que a viu na sala de aula gritou: “A cozinha é o lugar para mulheres, não o ensino politécnico!”. Quando se formou, em 20 de janeiro de 1912, foi considerada pelo decano do curso como a aluna mais aplicada.
A primeira mulher das Américas (e provavelmente do mundo) a receber um diploma em engenharia foi a norte-americana Elizabeth Bragg, graduada em engenharia civil em 1876 pela Universidade da Califórnia em Berkeley. Porém, foi outra norte-americana a primeira a atuar, de fato, na engenharia e ser reconhecida por isso. Em 1872, mesmo sem ser diplomada, Emily Warren Roebling assumiu a construção da Ponte do Brooklyn, após seu sogro e seu marido, respectivamente o projetista e o executor da obra, terem de abandonar os trabalhos, incapacitados por graves acidentes. Sob a orientação do marido, Emily havia estudado matemática superior, cálculos e todas as especificações da ponte. Ela supervisionou a obra durante 11 anos até sua inauguração, com grande alarde, em 1883.
No Brasil, a primeira mulher a se formar em engenharia foi Edwiges Maria Becker, em 1919, pela Escola Politécnica (RJ). Mas foi Carmen Portinho, a terceira mulher a se formar engenheira civil na mesma escola, em 1926, que mais se destacou na história, por ter se tornado militante feminista. Recém formada, engajou-se na luta pela conquista dos direitos civis e políticos e pelo reconhecimento profissional das mulheres. Carmen, que morreu em 2001, aos 98 anos, é citada como referência da engenharia feminina pelas poucas mulheres que conhecem sua história.




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